Contra à gripe suína


É tarde para barrar o avanço do vírus da gripe suína. O H1N1 já se espalhou por três continentes e a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu ontem ao mundo que se prepare para uma pandemia — uma doença epidêmica amplamente difundida. “Nós estamos lidando com uma situação muito séria. Consideramos extremamente séria a chance de uma pandemia”, afirmou Kenji Fukuda, diretor-geral adjunto para segurança sanitária e de meio ambiente, durante coletiva de imprensa realizada na sede da entidade, em Bruxelas. “Estamos realmente em um período em que os países deveriam se cuidar para a possibilidade de uma pandemia, especialmente aquelas nações que ainda não estão lidando com infecções em seu território”, acrescentou. O especialista explicou que a OMS tem procurado se antecipar ao impacto de um surto de grandes proporções nos países em desenvolvimento.


Não está descartada a possibilidade de a entidade elevar nos próximos dias o nível de alerta de 4 para 5, o que indicaria infecção humana em larga escala e a iminência de pandemia. Essa medida depende da confirmação oficial das autoridades norte-americanas de que o vírus da gripe suína se espalhou de maneira significativa entre as pessoas. A Prefeitura de Nova York não descarta que o H1N1 tenha contaminado centenas de estudantes do centro de ensino médio St. Francis, no bairro Queens.

Fukuda explicou que é impossível determinar as origens do H1N1 e confirmou a estratégia de mitigação da doença, um sinal de que a OMS não tem condições de combater o vírus. “Uma das lições que a história nos mostrou é que as pandemias podem variar de relativamente moderadas a extremamente severas. Creio ser prematuro prever o tipo de pandemia que veremos. É inteiramente possível que tenhamos uma pandemia muito moderada”, explicou. No entanto, ele lembrou que a pior pandemia do século 20 ocorreu em 1918 e começou relativamente leve até se tornar uma das mais graves doenças já registradas. “A coisa mais importante que podemos fazer agora é manter um estado bastante alto de monitoramento e vigilância”, aconselhou. Diante de uma possível epidemia, a farmacêutica suíça Roche enviou 2 milhões de kits do antiviral Tamiflu para a OMS e mantém outros 3 milhões nos depósitos de seu laboratório, com a promessa de encaminhar remessas aos países necessitados em até 24 horas. Em entrevista ao Correio, por e-mail, o microbiólogo norte-americano David Topham, co-diretor do Centro de Excelência de Influenza do Estado de Nova York, admitiu: “Ninguém sabe se é possível deter esse vírus”. Apesar de reconhecer a eficiência de drogas antivirais como o Tamiflu, o especialista defendeu os esforços pela criação de uma vacina. “Modelos computacionais sugerem que o Tamiflu pode desacelerar a progressão de transmissão do H1N1, mas a estratégia ideal é o desenvolvimento da vacina”, disse.

Genética
O principal temor de Topham é de que o vírus H1N1 seja muito diferente, em termos genéticos, do influenza que circula entre humanos. “Isso sugeriria que nós temos pouca imunidade, o que tornaria o vírus de fácil disseminação”, explicou. Até o momento, a rápida proliferação do H1N1 tem intrigado os cientistas. O vírus atingiu ontem pela primeira vez a Oceania e o Oriente Médio, com 11 casos na Nova Zelândia e dois em Israel — um jovem e um homem de 47 anos recém-chegados do México. Os neozelandeses infectados são estudantes de segundo grau de Auckland que também retornaram de uma visita de três semanas ao México no último domingo.

Consultado pela reportagem, o chinês Yi Guan, diretor do Laboratório de Doenças Infecciosas Emergentes da Universidade de Hong Kong, adota um tom menos pessimista. “Ainda não é impossível conter esse vírus no atual estágio, ainda que ele tenha se expandido para vários países”, garantiu. Segundo ele, os infectologistas precisam acompanhar prováveis tendências: um aumento dramático no número de casos nos Estados Unidos; a transmissão entre humanos nos outros países afetados; uma redução no número de infectados no México.

Dúvidas intrigantes
Tudo o que se conhece sobre o vírus H1N1 são o seu “retrato” — divulgado ontem pelo Centro para Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, pela sigla em inglês) — e o fato de que ele mistura o DNA dos vírus das aves, dos porcos e dos humanos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda não tem ideia de como o vírus surgiu. A suspeita recai sobre a morte de uma mulher no estado mexicano de Oaxaca, em 13 de abril. Ela ou alguém com quem teve contato teria sido infectado ao manusear um porco contaminado no abatedouro ou na zona rural. Outra questão surge como quebra-cabeças para os cientistas: por que o vírus H1N1 matou 152 pessoas no México e não fez nenhuma vítima em outro país?

Para Christian Sandrock, especialista em doenças infecciosas e pulmonares do Centro Médico da Universidade da Califórnia, a resposta pode associar o comportamento de alguns mexicanos ao sistema de saúde do país. “Creio que os pacientes que acabaram morrendo procuraram ajuda tarde demais ou, pelo fato de serem de uma classe socioeconômica baixa, não teriam recebido cuidados médicos adequados”, arriscou o cientista, em entrevista ao Correio por e-mail. “Eles deviam ter inclusive outras doenças não detectadas, que os colocava sob risco.
Yi Guan, diretor do Laboratório de Doenças Infecciosas Emergentes da Universidade de Hong Kong, acredita que o motivo para a alta letalidade da “variante viral mexicana” envolveria mecanismos evolutivos do H1N1. “Normalmente, no estágio inicial depois da transmissão entre as espécies — de animais para homens —, o vírus é relativamente mais letal para humanos. Depois da contaminação entre homens, a virulência cai ou se torna moderada”, comentou. “A resposta a essa questão está ligada à evolução do H1N1, à adaptação de um novo hospedeiro e ao nível de imunidade dos hospedeiros.”

Uma compreensão do vírus depende do conhecimento do número real de pessoas expostas no México. “Se for alto, isso sugeriria que muitos têm a doença em estágio moderado ou insignificante, o que sugere queda na taxa de mortalidade”, afirmou o microbiólogo norte-americano David Topham. “Os poucos casos nos EUA e em outros países indicam que o H1N1 não é tão letal. Mas, de qualquer modo, houve poucos casos fora do México para uma avaliação precisa.”

In, http://movimentoordemvigilia.blogspot.com

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