CREPÚSCULOS III


E vai mais um copo ?!

E mais outro que se esvai, que se engole num trago,
um banco vazio a um canto,
um cigarro aqui pisado,
outro repisado, outro ainda mal queimado que tresanda,
pálpebras cerradas. Não! Semi-cerradas.
Damas ignóbeis, famintas,
risos e chôros abafados. Talvez ais!
Versos brancos, ôcos,
olhos ardentes,
molhados,
inchados,
prazeres num vómito,
um gaz de escape descuidado.
Alvos translúcidos, (qual fantasmas),
acrobatas bailando
num arame imaginário.
Carnaval de ocasião,
gigantones, ilusão,
miséria franciscana,
intelectuais de pacotilha,
olhos nos olhos, sorrisos cínicos,
sujas a unhas, elegantes esqueletos,
trapinhos novinhos
alugados na esquina.
Mazelas antigas,
lutos e lutas,
bebidas baratas,
venenos letais,
ratos de esgotos,
gatas surradas
nas esquinas do mundo.
Tudo mas tudo
p'ro esquecimento.
Numa edilidade que cresce,
mas ao contrário,
a penumbra da hibernação
paira num ar fétido
das migalhas e esmolas dos outros.

Observo-os de perto... ou de longe...
esvaindo-se... incrédulos...

E vai mais um copo ?! Talvez um cigarrito!

João Belém
2010-10-25

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