CREPÚSCULOS I


No curto segmento que o meu imaginário ainda alcança, consigo discernir os teus olhos orvalhados por gotas de lágrimas que suavemente te percorrem o rosto.
(Tomara ser eu
na subtileza de uma gota
roçar-te a pele
numa carícia marota!)

Gota a gota escorre,
escorre na pele,
escorre da pele para o pó
do caminho pedregoso do quotidiano, que nos consome, dia a dia, num constante ribombar de acontecimentos e cenas inimagináveis que nos corrompem o ser e nos levam, tantas vezes a forçar o sonho de alcançar um outro patamar com espaço e dimensão suficiente para um recomeço feliz.
Na tua maneira de ser e sentir, demonstrada na poesia das palavras sábias e sentidas, impregnadas de sonho e génio, que me encantam e embalam, e me enternecem nos maus momentos, não sei se sabes mas és tu que fazes isso;
e nos momentos óptimos, que me surpreendem, por serem tão perfeitos e isentos de falhas e contradições, tu estás lá bem no meio e fazes-me bem.
Quando em noites de trovoada e nevoeiro cerrado, o frio me enregela e a solidão lá do fundo da sala escura me chama estendendo-me a mão, recordo com ternura as linhas de palavras sérias e meigas que me tocam profundamente. E nesses momentos de vertingem, acorro delirante ao teu olhar, à tua mão sadia, recorro ao sonho de um sorriso terno, e, varrendo a solidão trocista atiro-me desenfreadamente (qual Ícaro) sobre uma ténue luzinha (qual estrela cintilante e estática) que parece surgir do nada, não é na parede, nem na janela, talvez na porta aberta, vem do silêncio da rua, ou da cauda do cometa ou talvez no vento norte que passa, passa… a trote…
No meu imaginário existe ainda uma Esperança imensa que uma partilhada Saudade ainda possa renascer no murmúrio de uma noite de silêncios.
Uma Esperança inexplicável reside no meu ego e me demove compulsivamente de me sentir totalmente só, como que pairasse num imenso crepúsculo que um dia qualquer muito próximo surgirá das cinzas, qual Fénix renascida.
João Belém
2010-07-23

1 comentário:

Antonia Ruivo disse...

Vagueio por entre as sílabas, aos meus olhos
São rosas que se desfolham, são abraços
São a recompensa para os meus passos
A ternura o reencontro, o secar de choros

Vagueio por entre as sílabas, junto todos
Os instantes de uma outra dimensão, os versos
São diamantes que então esculpi, são cheiros
Que vêem no vento suão, são também desejos

Aqueles que guardo, de uma outra era
Alimento-me de cada palavra, agora sei
Que quando escrevo, em frente seguirei

Pelos caminhos tortuosos da existência
Opaca, mas basta querer e a Primavera
Cobrirá de flores a nossa espera.

também és tu