E o vento a chamar... chamar...



E o vento a chamar... chamar...

A brisa voltou roçando na vidraça do descontentamento.
Reanimou, avivou a memória corroída por agruras e penúrias, 
tocou no sentimento há muito perdido.
Palpitou ao de leve primeiro com dedos cálidos de esperança,
de seguida com temerária violência, explodindo intrépida.


Olho por entre vidros foscos um horizonte distante, errante...

Mirante atento avisto sonhos por entre abrolhos.
Ainda existo.
Vislumbro algo útil que me desperta o indómito ânimo de que padeço.
Na brisa que tocou a vidraça 
algo de génio vagueando me alicia para um novo rumo tentar...



Desperto lerdo.
E o vento a chamar... chamar...
Até partir de novo... e não vai voltar!

No seu regaço de concha
remeti oferendas novas,
murmúrios, ais,
saudade, prantos,
ainda assim alguma esperança 
e uma trouxa de beijos brandos. 

João Belém
Maio 2014