Chove...


Vagarosamente,
a solidão envolve-me.

O amor ausente,
não desvanece o morto tempo.

Um leve despertar recorda a saudade.
Um doce lembrar embala mas desassossega,
de novo.

Momentaneamente, a vida,
os irrisórios,
abstractos,
lentos factos,
infinitas rotinas,

tendem a uma total displicência,
que temporariamente me assola.


Chove de novo,
lá fora.

Os algeroz extravasam repletos,
as violentas bátegas que sulcam o empapado solo.

O negro asfalto,
sacudido p’lo vento agreste
é um inóspito mar,

profunda cova de gritos,
prantos viúvos,
tenebrosas vagas,
que despedaçam
toda e qualquer espécie errante,
desprevenida,
aventureira de vida.


Chove deveras
e é lindo.

Advinham-se tempos de outrora
(mera ilusão!!).


Quando o Sol da primavera despertar paixões e cantos,
a flor nascerá.

A vida vai brotar resplandecente de cada fresta aberta.

Vagarosamente,
a solidão que há poucas horas me assolava a alma,

não passa agora, de uma ténue saudade que se esvai,
perante o cenário radioso
de uma paisagem alentejana (que eu adoro!),

varrida pela chuva de inverno (que eu detesto!!).

João Belém
2010-01-04