A diferença entre culto e erudito

[...]

A diferença entre culto e erudito é que, quem é erudito torna-se erudito, e quem é culto nasce culto. Nascitur, non fit é verdade do homem culto como do poeta. Porque a cultura, mais do que uma mobilição do espírito, é uma atitude dele. E essa atitude, quando se não nasce com ela, é escusado tentar adquiri-la. No seu ensaio sobre Shakespeare, o crítico inglês Walter Bagehot encontra no poeta uma faculdade proeminente, a que, de acordo com a tendência inglesa para [...], define a faculdade de experienciar. Desculpe-se a tradução que faço; outro termo, já feito, não conviria. Shakespeare, opina Bagehot, tinha a faculdade primacial de tirar de tudo quanto via ou lia, de tudo a quanto assistia, elementos de originalização; a isso chama Bagehot a faculdade de experienciar. Em contraste, ele aduz Guizot e Macaulay, os quais, leitores assíduos, políticos assíduos, não colheram, porém, da sua experiência das duas vidas outro ensinamento do que ensinamento nenhum.

Sou eu, porém, e não Bagehot — não vá a malevolência do leitor sorrir que eu adapto e traduzo o que vou teorizando — que faço a distinção entre culto e erudito. Homem culto é aquele que, de tudo a que assiste aumenta, não os seus conhecimentos, mas o seu estado de alma. O erudito lê e fica sabendo; quanto mais lê, mais fica sabendo. O homem culto, em geral, quanto mais lê de menos fica certo. A segurança e a confiança são atributos finais da erudição — como o cepticismo e a hesitação apanágio extremo da cultura. [...]

Fernando Pessoa

Sem comentários: