..., mas não dizem!





Encontro-me completamente só,
Nas minhas grandezas,
Nos meus sonhos de adulto
Enfadado,
Incompreendido,
Aborrecido,
Crispado por tudo e por nada,
Ludibriado por pensamentos,
Iludido por ilusões
Contíguas,
Enubladas nuvens do meu interior
Taciturno e distante,
Como metal enferrujado
Perante pingos
Contínuos e húmidos,
Que caiem
Gota a gota sobre a minha cabeça,
E me tornam
Escorregadio,
Viscoso,
Análogo a um ser
Aquático,
Espécie de serpente
Tenebrosamente fria;
Encontro-me despovoado de ideias
Novas,

Cheias de concrecto,
Luminosas
Fontes do meu “ego”
Sonhador,
Apaixonado por seres
Miraculosos,
Belos corpos edílicos,
Deusas Olímpicas,
Ninfas, sereias,
Gente bela, perfeita
Que me ajude a acordar
Desta amnésia;
Encontro-me comprimido por ditos
Prosaicos,
Genéticos,
Empalhaçadas línguas
Que excrementam as ruas,
os céus,
Banhados por fétidos,
Ensurdecedores ruídos,
Gases venenosos
Que me vão intoxicando a alma,
Vazios opacos,
Que me arrastam para o fundo
Dos abismos da Eternidade,
Cósmica maniera
De compressão lenta,
Abominável forma de sucumbir.
Estou maçante hoje,
Acabrunhado pelo vento
Gélido de Verão,
Pelo calor insuportável de Inverno;
Já nada é como era.
Tudo está numa desordem atroz,
Modificado,
Trocado.
Encontro-me...
Encontramo-nos...
Encontrar-nos-emos sempre
E cada vez mais, assim, todos,
Neste estado,
Nesta amnésia alucinante,
Que nos corrompe o espírito,
Que nos rói o couro-cabeludo,
E nos escalpa,
Arrasta
Pelas agulhas e asperesas
Deste Mundo de insensíveis.
Encontro-me completamente só,
Ponderando sobre isto
E aquilo,
Tentando esquecer
O que não se esquece,
Tentando exprimir
Por meio de linguagem
Simbolicamente áspera e ruidosa,
Aquilo que muitos querem,
Sentem,
Mão não dizem.

João Belém

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