VAMOS AO TEATRO

Acto III

Não me lembro de ter escrito nas folhas do livro branco da minha vida, que folheio de frente para trás, com a mera ilusão de algo encontrar, entre cenas mirabolantes e episódios inacreditáveis, qual novela enfadonha e repetitiva que enterneceu meros corações ingénuos, sem final feliz, nem encore.

Jamais acredito que exista uma palavra certa e fugaz que me inspire, no turbilhão de letras e sentimentos e expressões e banalidades que brotam do meu cérebro dorido. Estas letras, que abruptamente transcrevo em palavras, surgem como que numa pura magia no teclado poeirento e gasto, de símbolos sumidos e brancos, pelos excessos de toques e lágrimas.

No écran da máquina, os símbolos esvoaçam, entrelaçam-se, sobem, descem, unem-se em expressões, em sílabas acentuadas, perdendo-se num risco contínuo que se esvai e se mistura na intensa luminosidade que nos consome a óptica visão desta virtual realidade mórbida que nos transforma em ciclopes míupes, qual andróides hipnotizados pelo facilitismo da máquina que tudo faz e em tudo pensa, com agilidade e destreza, aos quais já não poderemos superar, alimentos suficientes para boas dores de cabeça e inestéticas rugas de velhos.

Mas voltemos ao livro da vida que carrego aos ombros, às costas, sei lá aonde mais e que há muito passou de moda, pois ninguém fala dele nem dá na tv.

É irreal dizer que não errei. Ignóbil seria se dissesse não sentir que não renego e até aceito, cada vez mais, todo e qualquer sorriso de amizade que me lancem e, quiçá, um mero gesto de concordância com uma ideia válida ou perspicaz que surja numa hora de sorte e destreza profissional, ou talvez uma carícia preciosa nos dias que correm, pois os louvores e os agradecimentos ignorados, vezes sem conta, (talvez deixando de lado a humilde e a indiferença a certos pergaminhos que tenho descurado), pretendo chamar à realidade justa, se ela mos conceder (quase todos).

Por mim alguém sofreu, eu sofri (pouco importa) pelos meus erros, pelos sonhos que criei, qual episódios virtuais, arrastando tudo para o desânimo. Falhas na realização do filme, da cena, dos gestos, da encenação, mudaram a sorte e os rumos dos acontecimentos duma vida irreal, aleatória e fugaz. A mentira, a jogada de bastidores, o insulto - pairaram e manipularam mentalidades e pensamentos. A mesquinhez e a inveja fizeram o resto.

Toda a grandiosidade que a vida proporcionava redundou num total fracasso de intenções falhadas e falidas. A realidade virtual é hoje real e brutal. Lôgros, dúvidas, caminhos trocados, ilusões, contradições, desprezo, solidão, esquecimento, "trocas e baldrocas", amores e desilusões, esquemas e jogos, do passado com o presente, do futuro nem sombras. Tudo misturado e atado num nó de difícil solução.

A minha vida é um logro imenso, repleto de intenções inválidas e incerteza. Há muito tempo, que tardam em se esvair num fumo branco e prometedor de renascimento e promessas válidas; apenas um incrível e impiedoso vazio reina. No meio de tamanha incerteza, todo o tipo de cenários de negação se formam.

O filme da vida prossegue, na balsa de madeira, com vela de pano sujo e bolorento curvado perante o vento agreste que o acomete, abeirado ao mastro meio corroído pelo bicho que se forma nas madeiras podres deste palco degradado à beira da ruína. Navega este barco rôto de tanto bater nas pedras, de tanto balouçar nas duras vagas do meu descontentamento.

Não me lembro de ter escrito nas folhas do livro branco da minha vida, que folheio de trás para a frente e que não posso fechar, que jamais escrevi...

(Continua)

João Belém

2011-08