SEM-VERGONHA

"De oportunismo em oportunismo, até ao descrédito final" arrisca-se a ser o epitáfio que, um dia, veremos eternizado no jazigo de Portugal. Um país que tem a capacidade de se reinventar no ridículo como nenhum outro, um país que, ano após ano, vê prejudicada a sua performance internacional por não poder brilhar num índice global das nações mais sem-vergonha. Um país onde, cada vez mais, se fomentam razões para os cidadãos se sentirem remendos anatómicos num corpo desconexo.

O mais recente dislate candidato a prémio cara-de-pau foi a concessão, por parte do Governo, de uma tolerância de ponto na tarde de ontem para os funcionários públicos que desempenhem funções não essenciais. Atentem no argumento dado pelo ministério liderado pelo impoluto Pedro Silva Pereira: porque sempre foi tradição.

O Governo não vislumbrou, portanto, razões objectivas para privar milhares de funcionários públicos (os tais que PS e PSD querem pendurar na cruz do infortúnio financeiro do Estado) de mais uma tarde de férias. Porque o fim-de-semana prolongado pelos feriados da Páscoa e do 25 de Abril (num total de quatro dias!) não era bastante para Portugal sentir que cumpriu o sacrifício pascal. E até os sindicatos que esconjuram os invasores do FMI não vêem nisto nada de estranho.

Mas a verdade dura e seca é que a tradição já não é o que era. O país pena por uma solução urgente, debate-se com problemas estruturais aparentemente irresolúveis, como a fraca produtividade e o peso excessivo da máquina do Estado na economia, e entregou parte significativa da sua capacidade decisória à vontade externa do credor FMI. Em suma: o país vive de mão esticada.

As contas que ontem publicámos neste jornal são esclarecedoras: uma tardinha de folga vai custar ao país 20 milhões de euros. Não é uma fortuna, de facto, como se apressou a responder Silva Pereira, depois de acossado por um Passos Coelho que reagiu ao retardador.

Mas, agora, digam-me lá: como é que se explica aos técnicos do FMI que estão em Portugal e que não vão fazer ponte nem gozar os feriados que vale a pena emprestar dinheiro a este país? E como é que a mesma classe política que, durante meses, diabolizou os mercados por projectarem uma imagem falsa de Portugal (o de um beco sem saída) ajuda, agora, a sedimentar o preconceito de que somos uns irresponsáveis dedicados apenas a fartas refeições, vinhaça a rodos e horas seguidas de futebol na televisão?

Os mercados queriam sinais? Ei-los, sob a forma de uma tolerância de ponto. Senhoras e senhores, Portugal em todo o seu esplendor. Um país tolerante. Até com a sua própria falência.

Pedro Ivo Carvalho

(In, http://www.jn.pt/Opiniao/)

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