Eles comem tudo e não deixam nada


Revolte-se o povo desta Nação.
Os cravos de Abril são esmagados.
Por entre as mãos escorre sangue da gente à espera de quem os salve.
Abro a janela, o nevoeiro é denso, vislumbro ao fundo um salvador. Espera, não pode ser, um homem de branco com cruz ao peito. Descarregam-se armas de camiões, cruzes na porta. Não pode ser, é nevoeiro, que malícia que estão a fazer, não vejo nada.
Fecho a janela. Não, espera.
Pareço ver lá ao longe uma multidão em desespero. Fábricas fechadas e gente no chão, espetam agulhas, a multidão sacia no corpo a vontade com a droga. O desemprego está controlado. Mas vê-se mal, está nevoeiro. Ouve-se o vento a soprar de longe, mas também um avião. Despenha-se. De seguida um clarão. Vêem-se uns brilhantes, parece até ser uns greiros de diamantes. Pura ilusão, é nem mais que uma queda intensa de granizo.
Este maldito nevoeiro que me atraiçoa e me engana. O homem de branco com a cruz ao peito. Será Monsenhor Soares da Rocha, com um cinto das calças ao pescoço, enforcado num pequeno pinheiro?
Não, são visões, estamos perto de Maio.
É um denso nevoeiro. Será El-Rei D.Sebastião, ou talvez o poeta a murmurar: "São os mordomos do universo todo, Senhores à força, mandadores sem lei".
Desaparece o nevoeiro e uma densa ilusão, será chuva, será vento, ou outro 25 de Abril.
Que venha outro 25 de Abril, mas a sério e que acabe com aqueles que o desvirtuaram.
E assim desapareçam os que comem tudo e não deixam nada.
Confesso ver os drogados a pedir justiça ao sistema.
Confesso que foi uma boa medida para camuflar o desemprego.
Confesso ver o fim de uma desigualdade tão desigual.
Confesso ver a falsa caridade com os dias contados.
Confesso que nunca vi tanta lata...

http://www.geocities.com/jornal_arrifana/25-confissoes.html

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