A Dúvida, a Solidão, logo... a Escrita

Na vida, chega um momento - e penso que ele é fatal - ao qual não é possível escapar, em que tudo é posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal.
Tudo menos a criança.
A criança nunca é posta em dúvida.
E essa dúvida cresce à sua volta.
Essa dúvida, está só, é a da solidão.
Nasce dela, da solidão.
Podemos já nomear a palavra.
Creio que há muita gente que não poderia suportar o que aqui digo, que fugiria.
Talvez seja por essa razão que nem todos os homens são escritores.
Sim.
Essa é a diferença.
Essa é a verdade.
Mais nada.
A dúvida é escrever.
É, portanto, também, o escritor.
E com o escritor todo o mundo escreve.
É algo que sempre se soube.

Creio também que sem esta dúvida primeira do gesto em direcção à escrita não existe solidão.
Nunca ninguém escreveu a duas vozes.
Foi possível cantar a duas vozes, ou fazer música também, e jogar ténis, mas escrever, não.
Nunca.


Marguerite Duras, in "Escrever"

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