Ainda existem pessoas de Bem

Estava a atravessar há meses uma fase da vida muito difícil e precária. À beira da rotura financeira e psicológica. A esperança de retorno era dúbia; poderia seguir o caminho da incerteza e continuar remando contra uma maré sonhadora mas sem futuro ou cair num abismo sem retrocesso.
Vários dias sem conseguir dormir, embora tivesse uma cama e casa. Comer alguma coisa, embora preferisse uma mesa para me encostar e cismar. A saúde física não era famosa mas dava para ir sobrevivendo a custo. A escassa família continuava a dar forte apoio mas com o receio de não haver contrapartida, da minha parte, a esse amor e carinho. Ainda tinha alguns amigos que se preocuparam e ajudaram.
O motivo para alguém chegar a este nível humilhante e degradante foi o acumular de diversos factores provocados por uma rejeição, vulgo, extinção do meu posto de trabalho regular, uma das únicas actividades a que dei, dou e darei sempre a importância devida, o gosto diário das tarefas correntes e uma entrega total. E a fase de trabalhador sem trabalho já é facto corriqueiro, infelizmente, mas comum, nos nossos dias para milhares de milhares de portugueses indignados.
Mas o contexto mudou. Ainda existem pessoas de bem entre nós. Ainda há cura possível para o flagelo. É preciso acreditar.
Pela primeira vez na minha meia vida de existência, senti e vivi uma situação limite, na qual não estava a conseguir reagir. Perdeu-se a graça e o sentido, como se os fios que nos ligam à vida e nos comandam a vontade tivessem sido desligados. Como religar tudo de novo?
Admiro e louvo a iniciativa, força de vontade e maneiras diferentes de sobreviver, que muitos colegas de ocupação e amigos meus, perante a injustiça e a humilhação provocados pela falta de emprego, me souberam transmitir, através das suas amargas experiências, dando-me um alento e uma nova maneira de sentir a gratidão, a fé, a auto-estima e a esperança. 
Estou grato a todos. O pouco de uns e o muito de outros me alimentaram a alma e depositaram no meu coração fortes mudanças de ânimo e visão da vida quotidiana.
Voltei a ter sonhos, a escutar as pessoas, a ler, a sorrir, a ser simpático com quem nos oferece um carinho, um sim, em troca de quase nada. 
Voltei a ser o optimista que sempre pautou pela vontade de triunfar, mudando as coisas para ajudar todo o mundo. 
Tal como acontece neste tempo de Quaresma, também o caminho supõe cooperar com a graça, para eliminar o homem velho que habita em nós. É ultrapassar o pensamento de que não existe futuro mas sim alimentar a esperança de que o presente tem de ser vivido intensamente, mostrando em cada dia todas as faculdades de que somos feitos, do ensinamento e assimilação de conhecimentos adquiridos ao longo da vida. É como renascer das cinzas, qual Fénix que habitou as profundezas do obscurantismo e nos arrastou para o abismo. O melhor agora é afastarmo-nos dele, deixando para trás das costas o negativismo e a descrença. Estou agora num tempo de renascimento. Um Plano Divino, com promessa de alcançar felicidade perdida no tempo e realização pessoal interrompida num fatídico dia de Março de outra era. Penso que a dor de cada um de nós deve ser sentida, respeitada e vivida. Faz parte da lide humana que a vida nos oferece, mas nada, nada mesmo, pode fazer com que desistamos de nós próprios. 
Há momentos na vida que só gente de BEM pode colocar-nos online e nos ligar de novo ao mundo visível, por meio de ajuda profissional, familiar, amigos ou até mesmo a nossa religião. Não podemos desistir quando nos olhamos ao espelho e nos vemos fracos. Respeitemo-nos e agradeçamos a Deus estarmos vivos. 
A vida não é fácil. Ninguém nos disse que iria ser. E todos sabemos que as dificuldades não nos podem derrotar, mas sim tornar-nos fortes e experientes. 
Santa Páscoa!
(In, Facebook QUINTA-FEIRA, 24 DE MARÇO DE 2016)

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